Do ontem ao Estreito de Gerbos

Sartoc era um rapaz prestes a concretizar 25 anos. Pensando nisso, percebia que não encontrava agora mais respostas do que em qualquer anterior momento da sua vida. As interrogações levantavam-se hoje tão grandes ou maiores do que há poucos anos atrás, altura em que acreditava que a sua confiança lhe abriria as portas do sucesso e da felicidade.

Vinha da ressaca de um ano em que tinha ganho uma surpreendente noção de mortalidade. Das relações que construíra, poucas tinham sobrevivido. Por vezes sentia-se estupidamente sozinho. Nessas alturas fazia-se acompanhar das mais variadas e inesperadas soluções (pessoas ou objectos) para o fazer sentir que o tempo não é, efectivamente, marcado por um ritmo constante.

Dos amigos que conservara com mais estima e perseverança recordava Polinq. Polinq era um rapaz chupado que sintetizava em si o radicalismo de uma revolução violenta, não política, ou exterior a si, mas dentro dos limites físicos do seu corpo e do espaço infinito e desorganizado da sua cabeça. Polinq tinha sido no intervalo (e nunca no espaço como recordaria a saudosa Professora MJM) de 5 anos, pelo menos, 5 pessoas diferentes, sem nunca deixar de ser ele mesmo. Era essa qualidade que lhe valia a admiração de Sartoc.

Passados estes anos e perante um abismo profundo e pronunciado sobre um mar de incertezas e reflexões náufragas, Sartoc procurava uma plataforma de construção de projectos futuros em que pudesse acreditar hoje, mas também nos próximos 25 anos, ao fim dos quais esperava poder despedir-se daqueles que o acompanharam. A este lugar chamava Estreito de Gerbos.

Neste dia, seco e longo, convidava Polinq a entrar no Estreito de Gerbos.